terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Gengibre

Ele era bem fácil de se dizer idealizado e um tanto difícil de se descrever, mas mesmo assim ela tentaria. Os cabelos levemente ondulados ruivos, ficavam sempre com aquele ar de propositalmente bagunçados. A barba rala por fazer, as quase imperceptíveis sardas charmosas no nariz adunco, lábios naturalmente rosados, ótimos pra se morder e os olhos levemente azulados, em um tom quase cinza. A pele, como só ela dizia, “cor de parede”. Ele era alto, esguio, quase desajeitado, as mãos grandes, os dedos finos. O tronco era despercebidamente forte, de forma com que ele a envolvia duma só vez, sem muito ter que tentar. As pernas eram longas, fortes e másculas, ela as adorava como só ela poderia dizer. Havia muitas outras coisas em que ela havia reparado, mas não se permitia descrever, queria guardar aqueles detalhes para si, sem dividir informações preciosas da singularidade que ele era.

Era paciente e sempre a olhava daquele jeito atencioso, quase preocupado. Entrelaçava as mãos na dela como ninguém fizera antes, intencionando uma segurança livre, que lhe dava asas. Tendia a ser um tanto pensativo demais e carregava o fardo de não poder ignorar suas constatações. A envolvia suavemente, e quando ela recostava a cabeça no seu peito sabia que tudo faria sentido, pelo menos naquele instante. Sabia muito bem que ambos pertenciam ao mundo e não um ao outro, por isso evitava brigas e caprichos, pois os motivos nunca surgiam.

E enquanto ela continuava a sonhar com ele, aquela materialização de todas as suas intenções, só conseguia pensar nos momentos de outrora em que os lábios se entenderam muito bem. Insistia em perceber que o lar deles seria qualquer lugar em que se encontrassem, quem sabe qualquer dia desses... Ela fechava os olhos e cantarolava com a voz mais desafinada do mundo: “So honey, won’t you come home, tonight?”

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pishsalver ou Upelkuchen?

(respondendo à Gabilinda)

Estava ali, um frasco de um conteúdo qualquer em uma estante empoeirada, enfilerada com uma diversidade de outros frascos. Definitivamente só diria que o conteúdo era qualquer, porque me era desconhecido, misterioso, mas falar que era um frasco qualquer era total tolice, dava pra perceber muito bem que esse frasco tinha algo de diferente. Suas cores destoavam do resto, ele reluzia, iluminava a estante inteira. O que seria?

Enquanto os outros frascos permaneciam grande parte do tempo em um silêncio oco, ou se desprendendo em palavras vazias, aquele frasco silenciava imensidão indescritível, gritava poesia. Era simplesmente intenso de se presenciar, por vezes lindo, outrora assustadoramente envolvente.

Desde que me recordo, foi assim. Intensidade, sorriso, lágrima, palavras, poesia, música, cinema. E não seria um simples rótulo de papel, mutável, escrito em letras garrafais e com um conhecimento limitado que mudaria toda aquela imensidão que o frasco me trouxera em pouco menos de um ano de intenção.


Te amo, Gabilinda. E sei que frasco é uma metáfora muito pobre pra falar de você, mas foi a primeira que eu encontrei. Acho que foi pra dizer só que um rótulo não vai conseguir mudar, pelo menos pra mim, quem você é, essa pessoa formidável, não vai conseguir mudar uma vírgula de tudo que vivenciei com você. Eu acho que o rótulo só limita, sabe? E você consegue representar tanta coisa pra mim ao mesmo tempo, coisas que um rótulo não passa nem perto de fazer. Espero continuar sendo um porto seguro pra você, uma amiga psicóloga que larga a psicóloga de lado pra poder dialogar de verdade, sem personas. Bem, espero ter conseguido responder suas indagações...

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Cerrado

Hoje está tudo assim, meio nublado, mas sem possibilidade de chuva, entende? Nem ao menos uma chuva pra me aliviar desse marasmo, nessa quarta com a maior cara de domingo que se possa ter.

O dia lá fora: lindo, quase perfeito. O sol brilhando, algumas nuvens que flutuam num céu mais que azul, só para dar um charme e fazer com que o pôr-do-sol que há de vir fique mais adornado.

Mas aqui dentro fico com essas nuvens cinzentas, pesadas e imóveis. Tudo em mim fica represado hoje. Bate um medo de olhar para o lado e ser definitivamente só eu mesma. As páginas que deslizo suavemente desse livro com cheirinho de novidade reafirmam minha estranheza em ser uma.

Essa raiva e rudeza só vem para esconder a verdade incômoda. Por mais que venham todas as reflexões, as constatações mais brilhantes, hoje sou sim pesadelo e daqueles que nos tiram o ar, do qual não conseguimos acordar sozinhos. Hoje sou relutância, incerteza, nó na garganta e até mesmo um leve desespero. Precisava mesmo acordar e perceber, como em outros dias que a minha verdadeira natureza é felicidade, mas infelizmente, não hoje...

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Desdizer

Tudo que me fizeste em enlace
Desfizeste nesse instante
Pudera nascer teimosia
Em palavras escassas?

Tudo que mentiste em suavidade
Desmentiste nesse instante
Pudera trazer insensatez
Em letras ilusórias?

Naquele intempérie dissestes raio de sol
E em apenas uma nuvem tempestuosa
Acabaste de desdizer.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Quarenta e dois

Risadas nada contidas
Sueca de sobriedade altamente questionável
Cuba libre direto do túnel do tempo

Largue desse moralismo sórdido
Porque enquanto os arrepios percorrem todo o meu corpo
Mesmo nesse calor estafante dá pra perceber muito bem
Que a sua vontade na minha faz todo o sentido

domingo, 21 de novembro de 2010

Fita Métrica

É no mínimo irônico que enquanto ela se descabela com as possibilidades sensatas em horas impróprias você preserva a vaidade intacta, a cabeça erguida e a lucidez intocada. Isso quase irrita, só não chega lá porque as ondas de temperança quebram bem perto da praia. O sorriso se segue, esclarecedor, incrédulo, mas ainda sim intencionado.

Não é que chegando mais perto o sorriso parece fora do lugar, torto, enferrujado? A situação parece envolta por uma grossa camada de lucidez questionável e vaidade solúvel. A cabeça pende nos ombros, balançando para todos os lados, às vezes acertando a indicação de mirar o teto.

Enquanto ela se guia por quase nada, e entende não muito bem o que fazer quando ele entrelaça os dedos suavemente nos dela, você insiste em parecer impassível. Veremos o que acontece quando por trás do cimento trincado surgir sua borboleta.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desfibrilador - Dez oito

Desfibrilador - Dez oito

Somente porque isso tem que estar aqui, não faria sentido não estar, mas eu sinto que é mais da Gabi do que meu. Quem sabe um dia eu chegue lá...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Precedendo o dez

O que queima agora é algo além daquela cinza com resto de brasa de outros tempos. O fogo que surge não se explica com atribuições costumeiras: pessoas e ocupações. É um fogo que surpreende, queima por si só, com a possibilidade de que eu possa ser simplesmente quem eu me permitir ser, alguém aí entende?
Sem fim e sem começo, fluxo e intenção. O que aqui e ali se expressa, não passa da mais supostamente inexplicável constatação: sou sendo e muito mais.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

De Pernas para o Ar

Hoje foi o dia em que a menina ficou com os pés logo onde deveria se ver a cabeça. E não saberia explicar nada além disso, todo aquele alvoroço não lhe permitia. Pelo menos não hoje, não hoje.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Semana produtiva

Hm, duas resoluções cumpridas:

- Voltar pra academia, saindo da minha vida sedentária de comilança.
- Começar a terapia, já no oitavo período de Psicologia. (antes tarde do que nunca)

Agora surgem as consequências: meu peito e minhas costas estão doloridas; e além de eu estar alvoroçada por esse primeiro contato com ser paciente/cliente em terapia, acabei indo em duas psicólogas maravilhosas e agora não sei com qual das duas eu prossigo o tratamento. õ.o

Post inútil, só senti vontade de postar. xD